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No dia 2 de outubro de 1992, 111 pessoas foram assassinadas na penitenciária do Carandiru, antiga Casa de Detenção de São Paulo. Em 27 de setembro de 2016, a três dias do marco de 24 anos do massacre, o Tribunal de Justiça de São Paulo anulou a condenação dos 74 policiais militares envolvidos nos assassinatos.

Para protestar contra a anulação e como ato de memória sobre o evento, o artista plástico paulistano Nuno Ramos realizou uma performance-vigília em que 24 convidados leem os nomes dos prisioneiros mortos, durante 24 horas. A performance, intitulada “111 vigília canto leitura”, foi transmitida pela internet.

Algumas das questões suscitadas pela intervenção de Nuno Ramos demonstram os limites drásticos dos gestos políticos na esfera midiático-digital, onde todo ato espetacular corre o risco de se tornar uma exposição tautológica do próprio espetáculo.

Apesar das boas intenções do artista, a performance foi reduzida a cacoetes de celebridades, sobretudo na forma em que foi divulgada pela imprensa. E a memória dos mortos, como nos milhares de memoriais espalhados pelo mundo (e o facebook é o maior de todos), foi resumida à opacidade neutra dos nomes, eufórica, performática ou melancolicamente repetidos na leitura.

A repetição aqui, longe de expor – freudianamente – a impossibilidade política do luto, e assim carregar consigo uma intensidade crítica (os assassinatos estão impunes, o cheiro dos mortos ainda está no ar), em efeito reverso juntou-se ao coro espetacular, contente e pitoresco das notícias de um feriado de finados.

O presente-eterno do ditado-chamada e a espetacularização das personas-leitoras conseguiu apenas produzir uma missa digital, uma pequena liturgia tornada imagem-produto. O toque de Midas da arte contemporânea é a inacreditável magia de tornar eventuais mercadorias mesmo as potências políticas de gestos absolutamente gratuitos – a própria política se torna aqui valor fetiche de imagem, marca imponderável do artista, imaterial capital humano.

A arte contemporânea é uma das frentes avançadas do capitalismo especulativo financeiro, onde até a memória histórica e as possibilidades insurgentes da ira política podem ser comercializadas a partir de um seguro e confortável apartamento na zona central de São Paulo (a vigília aconteceu em um condomínio, que no contexto recente do centro da cidade só pode simbolizar o processo acelerado de gentrificação).

Nuno Ramos mercancia com a memória dos mortos. Mercantiliza até mesmo o inapropriável: seus nomes próprios. Os 111 nomes próprios de Nuno Ramos. E interdita essa memória ao torná-la palatável, jogo diletante de celebridades em uma noite fresca de verão paulistano, com a cobertura amiga de jornalistas da Folha de SP e de uma assessoria de comunicação.

Mas o que será fazer justiça à memória dos mortos do massacre do Carandiru?

Não ser capturado pelos dispositivos do espetáculo exige muita atenção e movimentos de deslocamento daquilo que está dado. Penso em Eduardo Coutinho, que em “Cabra marcado para morrer” não realizou apenas um relato sobre as ligas camponesas na Paraíba ou sobre a memória do líder camponês João Pedro Teixeira, assassinado em 1962. A retomada das filmagens após 17 anos de sua interrupção forçada em 1964, ao dar voz ao presente das personagens que à época enfrentaram o cerco policial e a expulsão das comunas de Galileia e Sapé, não é apenas uma rememoração-celebração do passado, muito menos um título no conjunto da “obra” do “artista” “Eduardo Coutinho”, mas um documento radiográfico que expôs a nu a violência de classe do golpe civil-militar e do projeto econômico-policial implantando em 64.

“Cabra marcado para morrer” faz girar no vazio o dispositivo “artista”-“processo criativo”-“obra” e incute num material quase perdido, ou fadado a repetir as formas da narrativa documental, uma subversividade política implosiva.

Nuno Ramos, ao citar nomes pela boca maquiada e bem alimentada de celebridades e hipsters[1], ao convocar teatralmente as lágrimas fáceis de um público erudito e “indignado”,[2] hipostasia – ou joga mais uma pá de cal – nos restos de Carandiru: onde estão os familiares destes mortos? Onde estão os verdadeiros protagonistas do massacre (o escalão de burocratas que governava o Estado de São Paulo naquele fatídico outubro de 1992, quem lançou a ordem de matança)? E as chacinas dos anos posteriores, operadas por esquadrões policiais que formam uma constelação macabra do que Carandiru expos e do que continua a expor no presente das periferias, nas celas e nos novos navios negreiros deste país?

Olhar sem temor nem esperança para o massacre do Carandiru e, sem temer a Górgona nem a repulsa, olhar de frente o obsceno perdão aos assassinos, é ver o golpe de 2016, o cartel de mafiosos que hoje está no planalto, o mesmo PMDB que governava o Estado de São Paulo em 1992. Seu principal assecla, o golpista Michel Temer, assumiu a secretaria de justiça de São Paulo logo após o massacre, indicado justamente para colocar panos frios e silenciamentos nas chamas do post-mortem. O atual Ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, até a data do golpe ocupava o mesmo cargo de Temer em 1992: Secretário de Justiça do mesmo Estado que permitiu o massacre, tendo sob seu comando um dos aparatos policiais mais violentos do mundo. Durante a passagem de Moraes na pasta, 798 pessoas foram assassinadas por policiais apenas em 2015 e, antes que Moraes passasse para a administração federal, mais 137 só nos dois primeiros meses de 2016 (segundo números oficiais reconhecidos pela própria Secretaria de Segurança Pública). O período foi marcado por chacinas em regiões pobres, como nas periferias de Osasco e Barueri: 15 chacinas em 2014, 17 em 2015. Como no massacre do Carandiru, até o momento ninguém foi responsabilizado pelos 133 chacinados entre os anos de 2014 e 2015[3], muitos mortos apenas por estar em “um local errado na hora errada”.

Ler listas de nomes não é buscar os rastros daqueles que hoje jazem em ossários. Os ossários e os memoriais têm uma proximidade funcional entre si. Às vezes é preciso ser um detetive, ao estilo de Bolaño, e ir atrás daquilo que é impossível lembrar, aquilo que despedaça a obra de arte e a torna algo próximo da vida, de um local selvagem da vida. Penso em “A parte dos crimes”, do “2666” de Roberto Bolaño, e sua linguagem de inquérito para falar do centro impossível de seu livro: as centenas de mulheres assinadas em Ciudad Juarez, crimes bárbaros de autoria incerta.

Fazer justiça à memória dos assassinados nos pavilhões do Carandiru em 1992 ou dos assassinados nas chacinas da grande São Paulo nos anos recentes, descortinar o porquê das absolvições e silêncios institucionais, é dar conta de que o Estado brasileiro é hoje dominado por criminosos organizados, com apoio logístico da grande imprensa[4], por eles financiada. Em uma situação de guerra, a arte e a política pedem mais que engajamento emotivo e lágrimas de telenovela. Pedem o ultrapassamento das fronteiras espetaculares onde tanto a arte quanto a política foram confinadas.

São Paulo, 02/11/2016

Jonnefer Francisco Barbosa

Professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUC-SP

 

[1] Em um contexto de “sociedade de informação” retorna-se à divisão medieval entre os alfabetizados (como membros do clero e da realeza) e a plebe inculta. A “elite” intelectual paulistana – mesmo aquela que se auto intitula de “esquerda” – quando, por exemplo, quer falar do Campão Redondo ou regiões da periferia, busca pessoas que passem pelo crivo da marca de autor (Ferrez, Mano Brown, Criolo, etc.) ou, na hoje banal retroalimentação do espetáculo, ainda estejam na crista da onda de um tema “midiático”: como os secundaristas ocupantes de escolas (fixar um movimento em uma identidade genérica é o início de sua domesticação). O irrepresentável da vida das pessoas pobres nos “media” paulistanos, mesmo nos circuitos alternativos, não necessita de teses acadêmicas uspianas para ser explicado: está subordinado ao sentimento pequeno burguês do horror à pobreza.

[2] “Ninguém mente mais do que o homem indignado”, já constava Nietzsche. Ele mente sobre sua estranheza em relação àquilo sobre o qual se indigna, esquiva-se de qualquer responsabilidade sobre aquilo que o toca. Sua impotência é postulada a fim de melhor se eximir de toda e qualquer responsabilidade quanto ao desenrolar das coisas; que depois é convertida em afecção moral, em afecção de superioridade moral. Ele pensa que tem direitos, o infeliz. Se já vimos multidões coléricas fazer revoluções, nunca vimos massas indignadas fazer outra coisa que não protestar de forma impotente. Comitê Invisível. Aos nossos amigos. São Paulo: Ed. N-1, 2016. pp. 66-67.

[3] Camila Boehm. Estado de São Paulo tem 17 chacinas com 69 mortes em 2015. Agência Brasil,   30/12/2015.http://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2015-12/numero-de-chacinas-chega-17-no-estado-de-sao-paulo

[4] Sergio Lirio. O golpe será televisionado. Revista Carta Capital, 28/10/2016.

http://www.cartacapital.com.br/revista/924/o-golpe-sera-televisionado

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